Cacos e Sangue

Eu tinha uma coleção invejável (e ainda tenho, mas em parte) de copos de requeijão coloridos com os mais diversos personagens de desenhos animados. Desenhos da Disney, Hannah Barbera, Warner, Maurício de Souza, etc., todos retratados em serigrafia nas superfícies cilíndricas e brilhantes dos copos de vidro. Peças raras, que com certeza não serão encontradas novamente a não ser na casa de uma ex-criança tão aplicada como eu a comer requeijão. Como disse no começo do parágrafo, eu tinha. Essa minha coleção está desaparecendo aos poucos, como se os copos quisessem fugir de mim, voltar para suas casas (onde quer que seja a casa de um copo). E de quando em quando, vejo os restos mortais coloridos e pontiagudos espalhados no chão da cozinha, de uma tentativa de fuga mal sucedida, ou talvez de um suicídio bem executado. Minha coleção foge de mim como a areia fina foge da peneira, não posso fazer nada.

Enquanto eu notava apenas a minha coleção se esvaindo, não vi a verdadeira raiz do problema, ligada à morte/desaparecimento de outras peças quebráveis da cozinha de casa. Taças de vinho, copos grandes, pequenos, pratos, xícaras, qualquer tipo de louça imaginável, tanto em casa como na empresa, somem sem deixar nem uma carta explicando sua ida. Meus instintos SherlockHolmísticos resolveram entrar em ação sem eu mesmo precisar me esforçar para isso. Resolvi pensar logicamente: Copos não têm pernas nem músculos, por isso não há como fugirem sozinhos, nem suicidarem-se. – Esse pensamento foi crucial para o meu raciocínio seguinte: Logo, para copos sumirem, é necessário um autor, uma pessoa familiarizada com esses copos, alguém que possa mexer neles sem levantar suspeitas. Comecei então a procurar por suspeitos.

Antes que pudesse tomar qualquer atitude, passo pela cozinha e vejo minha mãe, com a torneira ligada, luvas de borracha na mão e restos mortais de um copo no chão, os quais ela catava com cuidado. Senti remorso por não ter feito nada com relação à mais uma baixa em meu pequeno exército brilhante.

Logo mais, fiz uma lista de pessoas que já tiveram contato com os copos e que provavelmente teriam novamente em um futuro próximo. Me espantei com o tamanho do relatório, e vi que não seria tão fácil assim concluir minha investigação. Eu deveria seguir outra linha de raciocínio. Resolvi largar a pesquisa de mão e dar uma volta para arejar e tomar um café. Preocupar-me demais me levaria à loucura, e não queria isso.

Fui a pé até uma cafeteria/livraria, com um ar meio rústico, estrutura de madeira. Como sempre faço, inspirei profundamente ao chegar ao local. O cheiro de verniz exalado pelo piso e paredes, misturado ao característico ar dos inúmeros livros e ao amargo aroma do café fazem milagres à minha disposição. Pedi um café longo amargo e um cheesecake, e fui sentar-me em uma mesa próximo ao balcão. Abri o portal para a única dimensão que me afasta desse mundo: Um livro da série Torre Negra, de Stephen King. A odisséia atemporal de Roland e seus companheiros de outras épocas/mundos transporta minha consciência para outro nível, de forma que esqueça as preocupações da vida cotidiana, incluindo nosso assassino de copos. Antes de terminar um capítulo, a garçonete de olhos amendoados me entregou o café. Morena, cabelo liso, e com pequenos, porém firmes seios por baixo do avental marrom, que me fizeram sentir uma vontade imensa de pular e comer “um petisco” antes da torta. Meu olhar de cachorro faminto deve ter durado muito tempo, pois ela pareceu notar e riu. Aqueles dentes brancos e simétricos, entre aqueles pequenos e rosados lábios foram como tocar gasolina na fogueira. Minhas calças já não me segurariam, mas minha cabeça, sabe-se lá como, desviou minha atenção para outra coisa: São dois lugares! – Lógico! Os copos não desaparecem apenas em casa, mas também na empresa… Isso reduziria para muito menos pessoas a minha lista. Fiz um tímido agradecimento à minha musa inspiradora que pouco entendeu, mas continuou a sorrir, e parti para casa.

Me vi novamente sentado na escrivaninha do meu quarto com lápis e papel na mão. Nove e meia, pensei, já deveria estar na internet brincando no iSketch. Mas não poderia deixar esse criminoso ficar impune. Continuei a rabiscar. Depois de muito tempo (dois minutos e meio), cheguei a uma lista definitiva:

  • Eu
  • Pai
  • Mãe

Fiquei estupefato. Não acreditava no que meu punho acabara de escrever e que meus olhos viam. Meus próprios pais suspeitos de algo tão terrível… e o pior de tudo: EU! Não podia acreditar que era suspeito, na verdade não podia mais acreditar nem em mim mesmo. Antes que entrasse em colapso, desisti da internet, da leitura, da janta e fui logo dormir. Fazer um exame de consciência.

Ao rolar na cama, durante o sono, tive um insight. Era mais óbvio que eu podia imaginar, e apenas precisaria confirmar minha tese. Nos dias seguintes, passei a acompanhar minha mãe depois das refeições, na hora de lavar a louça. Foram necessários apenas dois dias para que minha hipótese se confirmasse: na quinta-feira, de meio dia, um copo “acidentalmente” escorrega da mão de minha mãe e cai no chão. Para os desavisados não seria nada além de uma fatalidade, mas meus olhos estavam preparados para ver além do óbvio. Observei cada movimento posterior dela. Pegar a vassoura, pegar a pá, varrer os cacos, o que toda pessoa que quebrou algo faria. Mas eis que chega um momento em que ela se abaixa, pega um dos cacos e coloca no avental. Tal movimento me deixou intrigado, mas não poderia fazer nada no momento. Por ora, já estava satisfeito em ter descoberto a assassina.

Na noite do mesmo dia, meus pais saíram para uma reunião na igreja. Foi o momento certo: vasculhei cuidadosamente cada mínimo centímetro da casa, para descobrir algo sobre a motivação de minha mãe. Finalmente, em um fundo falso na terceira gaveta de sua penteadeira, encontrei uma pequena caixa com revestimento de couro. Abri-a, e percebi que não convivo com uma criminosa, e sim com uma psicopata. Na caixa, um pequeno bloco de papel com a data da compra de cada copo que chegou em casa anotado, algumas riscadas, com uma data ao lado, sempre fechando um aniversário corretamente. Não importava quantos anos o copo ficava em casa (ou na empresa), desde que ela o destruísse em seu aniversário. Junto disso, fragmentos piramidais com o máximo possível de simetria, com pedaços coloridos de cada copo assassinado jaziam, como troféu. Não eram acidentes, não eram assassinatos quaisquer. Era um esporte cruel.

Sem meus aguçados ouvidos perceberem, meus pais chegaram em casa. Não tive tempo de esconder nem de me explicar, lembro-me apenas de ver a fúria selvagem de minha mãe ultrapassando os 4 metros que nos separavam e me atingindo. Vou apagando aos poucos.

Acordo então para a realidade, para este mundo sem investigações sobre copos, mães dementes e garçonetes gostosas que me dão mole. Vida sem graça, sem narratividade. Torná-la um romance seria até interessante, mas não vem ao caso agora. Prefiro me manter protagonista de uma história crua que ninguém leria.

Mesmo sem precisar investigar, tenho notado há anos que minha mãe não consegue ficar nem mesmo uma semana sem pelo menos quebrar um copo (existem semanas nas quais ela quebra dois).  Faz uns três meses que venho enchendo o saco pra ela tomar cuidado, mas não adianta nada. Então comecei a fantasiar, ela deve ser algum tipo de assassina de copos, sei lá. Tomara que eu esteja errado.

Ontem, aqui na empresa, ela quebrou mais um copo. Enquanto ela juntava os cacos e eu a repreendia, posso jurar que vi um sorriso esboçado em sua face. Agora passo longe da penteadeira dela.

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6 pensamentos sobre “Cacos e Sangue

  1. 1. Sorte tua que tua mãe só quebra copos, porque a minha quebra também bandejas, pratos, vasos…

    2. Aqui em casa andam sumindo facas. Prefiro não fantasiar, anyway.

    Sugiro que tua mãe não lave louça de luvas. Isso atrapalha muito. A não ser que ela preze mais as unhas do que a louça, aí…

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